quarta-feira, 26 de março de 2008

Texto do Pai






Texto de Agostinho Veiga um mês antes de eu nascer. Penso que espelha as minhas raízes e a pessoa que o meu pai adivinhava com antecedência, aquilo em que me acabei por tornar, pela sensibilidade
e o respeito pelas minhas origens, o Porto cidade, que ele me transmitiu.


«Talvez cumprindo um velho ritual, trago-te minha filha, para que vejas como é belo este rio beijado pelas gaivotas, numa manhã de Março.
Ás vezes ignoramo-lo, perdidos por entre a sedução cinzenta e geométrica da cidade nova. Depois sentimo-nos nostálgicos e precisamos de rever o pôr-do-sol, vermelho e quente, que só ele nos sabe dar.
Minha filha, este é o rio que te dou!
Olhas-me com esses olhos grandes de quem descobre tudo e quer descobrir mais ainda. Talvez não entendas as minhas palavras nem o que elas querem dizer e ris com o voo perto das gaivotas do Douro. Talvez um dia recordes, mesmo assim, tudo o que vês, como eu às vezes recordo o rio que o meu avô me mostrou, tão parecido e tão mais velho que o Douro do Manoel de Oliveira.(...)»


Não sei como me adivinhaste tão correctamente de «olhos grandes», dotada de uma vontade de descobrir tudo e querer descobrir mais ainda. Esse rio tornou-se, na verdade, parte do meu imaginário e todos os «Douros» de Manoel de Oliveira, assim como as gaivotas que gostamos de fotografar e já filmamos na praia enquanto levantam voo na sua liberdade de pássaro.

Um comentário:

Beiga disse...

Embora pouco tenha eu a ver com este laço, os pais e filhos que constroem este milagre da criação, que o és, como somos todos nós. De repente,ao ler este texto saltei uns anos atrás, e como um fadista amarrou-se-me a garganta e soltou-se aquele grito agudo a que chamam de saudade.
Um beijo.